Ode
em eternos momentos cantados
ao longo de séculos armados
a espuma do mar encantada galopa céus
com feitos heróicos
e sonhos errantes
Portucale, terra mãe por tradição ligada ao chão
ao mundo
cultura e visão celebrada
guiada por navegantes no coração dos oceanos
no olhar das estrelas e mapas inscritos nos sextantes
busca de um novo mundo
por homens e reinados cheios de planos
séculos volvidos
lamentando a pátria
o povo cansado de resignação
a tensão nos olhos cabisbaixos e ausentes
o medo nos diários do governo
evoca a saudade de liberdade no coração
servidão torcida
por comandos e regras dos senhores do destino das suas vidas
farpas dos homens proscritos
estantes
caligrafias presas por muros adormecidos nas cidades
intimidades dos vencidos
o silêncio na prisão das palavras
cartas de amor aos encarcerados
memórias entrelaçadas nos corpos controlados
1974
passos de revolução
caminhos calcados em campos de sementes, cereais e forquilhas
unidos, movimentos vencem pandilhas
com dedos promissores de vitórias
e erguem pulsos
causas, esperança e pão
no encalço de uma evolução das liberdades
movidas pelo sonho ardente
a casa aberta ao povo vislumbra as igualdades
sons libertando censura: palavras de abril
primeira expressão da aventura
adrenalina na comunidade militar dos quartéis
ordens em rede esperada ao telefone
capitães de abril
com armas de paz e fardas de primavera
agrupamentos nas ruas enfeitadas de corações
berço de manifestações da esperança nos novos ideais
sem sangue, sem violência ou divisões
portas de saída que soltam os espíritos livres das prisões
para fazer a hora acontecer
vindimar o sonho
movimentar as linhas do tempo
ampliar a liberdade
multiplicar pétalas e beijos
e no tempo acelerado do presente
nas novas prisões que boicotam a verdade
questionamos a experiência
indagamos a responsabilidade ausente
de décadas de sonhos por cumprir
em que geografia fomos parar?
onde andará o céu da liberdade, a força unida
onde andarão os cravos desbotados da sua cor
a cura do povo pacífico de brandos costumes
a nova identidade feita de testemunhos de dor
a intenção de curar retalhos marginais, tanto trabalho e exploração!
onde andará a musa que inspirou a luta para actualizar o passado altivo
e os arrepios na pele e a sonoridade da alegria em canção?
Sofia Moraes, Abril 2024